{ Sábado, Setembro 15, 2007 }
:: deus
"Não, não devia pedir mais vida. Por enquanto era perigoso. Ajoelhou-se trêmula junto da cama pois era assim que se rezava e disse baixo, severo e triste, gaguejando sua prece com um pouco de pudor: alivia a minha alma, faze com que eu sinta que Tua mão está dada à minha, faze com que eu sinta que a morte não existe porque na verdade já estamos na eternidade, faze com que eu sinta que amar é não morrer, que a entrega de si mesmo não significa a morte, faze com que eu sinta uma alegria modesta e diária, faze com que eu não Te indague demais, porque a resposta seria tão misteriosa quanto a pergunta, faze com que me lembre de que também não há explicação porque um filho quer o beijo de sua mãe e no entanto ele quer e no entanto o beijo é perfeito, faze com que eu receba o mundo sem receio, pois para esse mundo incompreensível eu fui criada e eu mesma também incompreensível, então é que há uma conexão entre esse mistério do mundo e o nosso, mas essa conexão não é clara para nós enquanto quisermos entendê-la, abençoa-me para que eu viva com alegria o pão que eu como, o sono que durmo, faze com que eu tenha caridade por mim mesma pois senão não poderei sentir que Deus me amou, faze com que eu perca o pudor de desejar que na hora de minha morte haja uma mão humana amada para apertar a minha, amém."
(Clarice Lispector: Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres)
{ Sábado, Junho 02, 2007 }
::morte e vida
"Meu caminho divide,
de nome, as terras que desço.
Entretanto a paisagem,
com tantos nomes, é quase a mesma.
A mesma dor calada,
o mesmo soluço seco,
mesma morte de coisa
que não apodrece mas seca.
(...)
Vou na mesma paisagem reduzida à sua pedra.
A vida veste ainda sua mais dura pele.
(João Cabral de Mello Neto)
Sem conseguir dizer em mim muito mais que isso.
{ Domingo, Maio 20, 2007 }
::rascunho de vidas passadas
As letras insistem em escrever, as palavras urgem por falar. Eu sou muda, toda muda. Bêbada, sôfrega, engulo, afogo. As sensações são maiores que um só corpo para agüentar. Rodo. Rodopio, danço. Danças? Sim, segues a minha valsa, ainda que distante. O meu compasso é teu, inteiro. Sabes do compromisso que é dedicar uma melodia a alguém? É quase um compromisso de uma vida inteira, uma melodia eterna feita em teu nome.
Você inscrita em toda a minha epiderme. Fora os outros, as outras. É só teu, uma posse que nem era para ser mas que tomou toda a minha carne. Minh¿alma clamando o teu nome, que nem ouso gritar de tão perto. És tu aqui bem perto, são os afagos quando eu não mais os esperaria, são todos os teus tantos cuidados. És tu.
(09 de fevereiro de 2007)
{ Quinta-feira, Maio 17, 2007 }
há algo em mim que cala e impede a expressão.
coleciono cartas inacabadas para ti, mas não acho signos para expressar algo do que sinto. a mão pára, a cabeça cala, o coração grita mudo.
o que em mim pensa está sentindo. o que em mim sente, tenta sem êxito pensar.
há um mundo estranho em mim.
há a vontade de parar.
há os fios que se vêem e se perdem, as linhas que tropeço.
há o atropelo.
há a ânsia de chegar, e a luz que não se faz.
há o eterno enigma de mim.
(há o inacabado)
{ Terça-feira, Maio 01, 2007 }
::curto, grosso e fora do salto
que merda de farsa é essa que eu estou vivendo?
porque aqui dentro nem tudo é magia poética, há também aquilo que é só ralo e esgoto.
e praticar a objetividade se faz necessário. ainda escrevo melhor sobre isso.
{ Segunda-feira, Abril 23, 2007 }
::com palavras não sei dizer
nunca se esqueça
nenhum segundo
que eu tenho o amor
maior do mundo
eu cantei pra ele. céus, eu cantei pra ele. cantei sem nem pensar, cantei porque era o que eu queria dizer, sem nem pensar que seria o jeito que ele gostaria de ouvir - e era. eu cantei pra ele. não importa se todas as pessoas cantaram comigo num acompanhamento indesejado, para mim era só a minha voz ali. e para ele. eu cantei para ele. não importa se depois falaram ter sido melhor violinos, EU cantei pra ele. não importava todo o mal que ainda tinha em mim, todo passado, naquele momento eu cantei tudo o que eu nem sabia que precisava expressar. eu cantei para ele e não foi canto de rancor ou de mágoa, canto dele. canto para a falta que ele já fazia na minha vida, canto para o eu menina, canto para o pedaço escondido de mim que ainda quer chorar.
um dia o canto ainda será de adeus, pai.
ps: por um luto de pai ainda não superado.
{ Terça-feira, Abril 10, 2007 }
vamos dançar nossas tristezas?
(descubro-me e abismo-me)
dias dúbios.
morri de amor e só seria bom se não fosse suicídio.
(assim, vago mesmo)
::Ímpar ou Ímpar
Pouco rimo tanto com faz.
Rimo logo ando com quando,
mirando menos com mais.
Rimo, rimas, miras, rimos,
como se todos rimássemos,
como se todos nós ríssemos,
se amar (rimar) fosse fácil
Vida, coisa pra ser dita,
como é fita esse fado que me mata.
Mal o digo, já meu siso se conflita
com a cisma que, infinita, me dilata.
(Paulo Leminski)
{ Domingo, Março 18, 2007 }
::verão chuvoso
Minha mãe sempre me diz,
Quando chega o verão:
Formiga quando quer
Se perder cria asa
(Maria Bethânia)